Certo dia o pai do Joãozinho chega mais cedo do trabalho e diz:
— Joãozinho, hoje o chefe do papai vai vir aqui em casa pra jantar com seu filho. Dependendo do resultado do jantar o papai pode até ser promovido, mas como eu te conheço moleque, vou te pedir pelo amor de Deus não me apronte nada!
Quando era umas oito horas a campainha tocou e o pai do Joãozinho foi atender a porta, quando ele olhou viu seu chefe e seu filho, mas o filhinho do chefe não tinha as duas orelhas!
Logo ele pensou: Meu Deus, quando o Joãozinho vir isto...
O pai do Joãozinho tentou disfarçar e pediu-lhe para entrar perguntando se estava tudo bem, se tinha pego transito, quando de repente o Joãozinho chega e olha aquilo e arregala aquele olhão!
O pai de Joãozinho tentando consertar a situação fala pra todos vamos jantar! Todos se sentam a mesa e o Joãozinho não para de olhar pro filho do chefe. O pai do Joãozinho percebendo as olhadas do Joãozinho da-lhe um pontapé por debaixo da mesa e olha feio pra ele, quando sem mais nem menos o Joãozinho olha pro chefe do seu pai e solta:
— Que Deus ilumine os olhos do seu filho!
Todos da mesa olham pro Joãozinho sem reação diante daquelas palavras tão bonitas. O pai do moleque sem orelhas olha pro Joãozinho com lágrimas nos olhos de emoção e diz:
— Nossa garoto, nunca ninguém disse algo sobre meu filho tão bonito pra mim, mas me diga uma coisa, por que, que Deus ilumine os olhos do meu filho? E então o Joãozinho responde:
— Ah, tio, porque se ele precisar usar óculos ele tá fudido!

Joãozinho, ceguinho de nascença, ia fazer dez anos. Faltavam poucos dias e, uma tarde, o pai de Joãozinho chega pra ele e diz:
— Meu filho, mandei vir dos Estados Unidos um colírio que vai curar a sua cegueira. É um remédio maravilhoso, milagroso. Só uma gotinha em cada olho e você vai poder enxergar! Joãozinho ficou todo feliz e disse:
— Que bom, pai. Agora eu vou poder saber como é você, como é a mamãe, meus amigos, o azul, o feio, as meninas, Nossa Senhora, as flores, tudo! Que dia o remédio chegará?
— Eu te aviso. — disse o pai.
E todo dia o pai chegava do trabalho e Joãozinho corria pra ele, aflito, batendo nos móveis, gritando:
— Chegou, papai? Chegou?
No dia 28 de março, o pai chegou em casa, aproximou-se do filho ceguinho e balançou um vidrinho no ouvido dele.
— Sabe o que é isto, Joãozinho?
— Sei, sei! — gritou o menino. — É o colírio! É o colírio!
— Exatamente, meu filho. É o colírio.
Que bom! — disse Joãozinho.
— Agora eu vou poder ver as coisas, saber se eu pareço com você, saber a cor dos olhos da mamãe, usar meus lápis de cores, ver os pássaros, o céu, as borboletas. Vamos, papai, pinga logo este colírio nos meus olhos!
— Não. Hoje, não — disse o pai.
— Mandei chamar seus avos, todos os nossos parentes; eles chegam no dia de seu aniversário, quero pingar o colírio com todo mundo aqui em sua volta...
E Joãozinho disse meio conformado:
— É. O senhor tem razão. Quem já esperou dez anos, espera mais uns dias. Vai ser bom. Aí eu vou poder ficar conhecendo todos os meus parentes de uma vez.
E foi dormir, mas não dormiu. Passou a noite toda sofrendo, rolando na cama, pra lá, pra cá. Quando foi no dia seguinte, dia 29 de março, cedinho, ele acordou o pai.
— Papai, pinga num olho só. Num olho só. Eu fico com ele fechado até a vovó chegar, juro!
O pai disse:
— Não. Aprenda a esperar!
— Mas, papai, eu quero ver a vida, papai. Eu quero ver as coisas.
— Tudo tem a sua hоrа, meu filho. No dia do seu aniversário você verá.
Joãozinho passou sem dormir o dia 29, o dia 30 e o dia 31.
Quando foi ali pelas dez horas da noite ele chegou pro pai e disse:
— Papai, só faltam duas horas para o meu aniversário. Pinga agora, papai.
O pai pediu que ele esperasse a hоrа certa. Assim que o relógio terminasse de bater as doze badaladas, ele pingaria o colírio nos olhos de Joãozinho. E Joãozinho esperou.
A meia-noite, toda a família de Joãozinho se reuniu no centro da sala e aguardou o final das doze badaladas. Joãozinho ouviu uma por uma, sofrendo. Bateram as dez, as onze e as doze!
— Agora, papai. Agora! O colírio.
O pai pegou o vidrinho, pingou uma gota num olho. Outra no outro.
— Posso abrir os olhos? — perguntou Joãozinho.
— Não! — disse o pai. — Tem que esperar um minuto certo, senão estraga tudo. Vamos lá: Sessenta, cinquenta e nove, cinquenta e oito, cinquenta e sete — e foi contando — e Joãozinho de cabecinha erguida esperando — vinte e seis, vinte e cinco, e foi, quinze, quatorze — e toda a família em volta esperando — e dez, e nove, e oito, e sete, e seis, e cinco, e quatro, e três, e dois e um e já!
O menino abriu os olhos e exclamou:
— Ué. Eu não estou enxergando nada!
E a família toda grita:
— Primeiro de Abril!